As Flores que integram esse Jardim

Hoje eu venho contar a vocês algo que há muito tenho pensado. “Plantar” ou trazer para replantar aqui nesse Jardim uma diversidade de Flores que me acompanham por esse mundão! Explico. Tenho descoberto com maior reflexão e profundidade que minha alma é bem porosa aos coletivos. Sou uma alma permeada pelos coletivos. Talvez e muito por isso, toda minha vida busquei fazeres e ações pautadas por eles: o teatro, a educação, a psicologia comunitária, a psicologia social, e agora a arteterapia em grupos.

Foi por isso que entendi que estar aqui sozinha me incomodava. Um Jardim precisa de Flores vivas, viçosas, potentes que alegrem a jardinagem, que nos façam querer estar aqui entre elas sentindo seu perfume, apreciando sua beleza. Então, estou convidando várias flores diferentes na forma e belas na igualdade. Flores que estão desabrochando e outras que tem uma maturidade semelhante aos perfumes das damas da noite. 

Essas flores são as mulheres do grupo de Acolhimento de Mulheres que curam feridas e reconhecem suas histórias suas cicatrizes, que fazem questão de exibir, como medalhas, frutos de aprendizagem da Vida. Esse grupo da qual tenho a honra de participar é coordenada pela profa Ana Paula Maluf do IJEP/ Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. Nesse grupo as mulheres, podemos expor livremente nossas dores, nossas alegrias,  nossas conquistas, nossas feridas em sangue e nossas cicatrizes. Temos amadurecido a ideia de produzir por meio da Arte, da nossa livre expressão criativa em textos, desenhos, mandalas, mapas afetivos, poemas, leitura de tarots, escrita ativa, meditações e muita expressão da nossa corporeidade.

Iniciamos esse processo da nossa expressão criativa numa parceria minha com Cecilia Crepaldi, pianista/musicista, onde noutro momento venho contar em detalhes pra vocês, porque é um projeto grande que ainda está em andamento, que integra um conto, músicas, poesia, artes plásticas, rádio novela e teatro. Por hora quero dizer que foi um dos trabalhos em arte mais intensos que tenho realizado em toda vida, que além de Cecilia Crepaldi, tenho como parceria Rosana Bergamasco, Andreia Araújo, Rosana Pereira e meu Diretor de Arte Adanias de Sousa.

Quando apresentamos o conto, com minha curadoria musical e os arranjos de Cecilia Crepaldi ao piano, imediatamente arrebatou todas as mulheres do grupo e sabemos que quando uma obra de arte toca o coração de todas/es/os, quando essa obra tem ressonância na maioria, é porque é uma expressão coletiva, mexe com a essência de todas/es/os.

Após essa parceria, abrimos um portal para a expressão criativa do Grupo de Mulheres e Ana Paula então convidou Regina Célia da Silva, artesã, e Talita Gomes, psicóloga clínica, para serem a próxima dupla a se apresentarem. E veio um texto de escrita criativa incrível conforme destaco abaixo:

Por Regina Célia da Silva Talita Gomes Fernandes

A solidão parece um buraco escuro que você não vê o fim. E quando você percebe, já não está só, está de mãos dadas com suas dores e percebe que as feridas ainda sangram.
Não há esperança, não há futuro.
É somente você e suas dores, é só você e os vários personagens que existem em si mesma, que querem levar você para o buraco, aquele buraco que não tem fim e que não há luz.
E assim, você fica aprisionada as suas dores, erros e aos piores aspectos de si mesma.
E logo em seguida, surge mais uma companheira, as lágrimas que já não encontram motivos para não cair.
E aí, você lembra que desde menina estava num deserto que queimava, maltratava e a noite congelava.
Andou sozinha, percorreu a trajetória solitária.
Até que descobriu as florestas, eram mais atrativas que o deserto, mas não soube sobreviver, não se nutria, tentou, mas tudo que conseguiu foi matar e morrer. Andou perdida e não conseguiu achar saída, pois ainda era apenas uma menina.
Certa vez, quase achou um caminho convidativo e com flores, mas era apenas uma ilusão.
E assim, permaneceu no chão, se rastejou pela lama, ficou e esperou, na expectativa que pudesse morrer para renascer.
De tempos em tempos, se levantava e dava um passo de cada vez, andava devagar, depois se recolhia e voltava à lama, ansiando pelo mergulho no mar.
O mar era o local onde se sentiria amada e acolhida, encontraria em fim a liberdade e a fluidez que tanto buscava…
O mar …ahh o mar…aquele bom e velho mar, que nos envolve, para uns proteção e limpeza com sua água salgada a levar embora, dores, angústia, solidão, trazendo alívio e renovação, para outros desespero, diante da imensidão que pode afogar com sua fúria quem ousar desafiar sem respeitar…
O mar é como a vida ou a vida como o mar, temos que descobrir e aceitar os limites, para superar e ultrapassar, por vezes nos deixar levar pelas ondas a boiar, outras tantas a desbravar e se debater sobre as águas claras, pesadas de sal, para no final…respirar…aliviada por ter sobrevivido!


fashion photography of woman hands on chin with glitter makeup
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Ahhh como é benéfico a nossa alma produzir arte queridas/os/es leitoras/es. A arte é um símbolo que ganha matéria e que precisa falar, expurgar, redimir, explicitar algo que pertence a todas/es nós! E foi nessa toada de amor e livre expressão da nossa voz, que a Ana Paula convidou a Monaliza Carvalho Godoy, fisioterapeuta e Chocolatier e a Tainã Fidalgo, educadora de infância,   para comporem uma parceria e diálogo conosco! E dessa dupla nasceu essa bela escrita criativa:

Vem manapor Monaliza Carvalho e Tainã Fidalgo

Vem mana, vamos conversar, passear, tomar um café, rir ou chorar…
Vem mana, deixa eu te abraçar, vamos banhar no rio, no igarapé, no açude ou no mar…
Vamos dançar, acender uma fogueira, brincar com as crias, correr na chuva, trilhar na floresta a luz da lua até o dia raiar…
Vem mana, vamos nos juntar ao redor da fogueira, trançar os nossos cabelos, beber e comer, rir ou chorar…
Vamos, me conte! Quais são essas dores? Quais os dissabores? Oh alma querida, o que é que te aflige?
Vem, compartilhe conosco, qual é o seu enrosco, ou será um encosto?
Quais são os desgostos a serem expostos na roda amiga, que escuta e auxilia os entraves da vida…
Vem mana, vamos juntas trilhar?
Entre luzes e sombras vem o despertar… que nasce da dor, depois põe-se a brilhar.
Mana, é no rasgar-se e remendar-se que tens a noção do quão forte e bela, feroz e singela és tu alma incrédula.
Depois da tempestade vem a calmaria, que nos abrandam a vida, dependendo da vista de quem nela confia.
Vamos mana, queira ser parte da cria que cresce unida e grita convicta que pela dor vem alegria.
Que benção a dor, que depois de tanto ardor, nos tornou parte do amor gratuito e acolhedor.
Ah, o amor… que nos salva essa alma desprovida de calma, porém repleta de dor, calma!
three women wearing turbands
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E esse texto retrata com tanta legitimidade a potência desse trabalho, dessa ciranda de  curandeiras, da beleza que há numa mandala de mulheres! E no próximo encontro haverá mais e certamente viremos aqui contar pra vocês! Quer agregar-se como mais um flor nesse Jardim? Escreva aqui nos comentários, aguardaremos ansiosa a sua chegada para que possamos te acolher seja você uma Rosa, uma Camélia, uma Margarida ou Dama da noite, o que importa mesmo é você espalhar por aqui seu perfume, sua beleza, mesmo que você venha carregada de espinhos! Vem!

Grupo de Acolhimento de Mulheres, coordenação Ana Paula Maluf, Analista Junguiana e Arteterapeuta

informações:  anapaulazm@yahoo.com.br 

Contatos: +55 11 38220713 ou +55 11 93019-5579