A relação Mestre-Discípulo – uma relação de amor em filia

 

Durante toda minha vida, tive muitas pessoas que considero meus Mestres e minhas Mestras. Ja contei noutras oportunidades, que minha primeira professora primária, como se falava em meu tempo, ainda viva, é minha grande Mestra: Profa Antonieta Trovatto.

Também não esqueço de quem formou meu pensamento crítico e político-social, além ensinar-me a argu-ir pela escrita e pela fala foi Prof Clovis Pacheco Filho, também ainda vivo, graças aos Deuses e Orixás. E o mais lindo, ambos ainda me orientam, me guiam. Duas grandes referências de Mestres da minha infância e adolescência .

Depois de adulta, eu encontrei sim outras referências que me ajudaram em minha busca pela Sabedoria, que jamais esqueço: Prof Carlos Gatto, prof Wilson dos Anjos, Prof Manoel Oriovaldo de Moura, profa Tizuko Morchida, Profa Monica Pinazza, profa Marcia Gobbi, Profa Maria Malta Campos, Profa Sonia Larrubia Valverde, Prof Paulo Gonçalo dos Santos, prof Fernando Haddad, prof Waldemar Magaldi, Profa Renata Mattar, Profa Lucia Helena Galvão, prof Gonzalo Ferreyra, prof Gabriel Noccera e Cláudio Loureiro! E o mais inesquecível, que ao lembrar tenho memória até do perfume de seu abraço: Mestre Paulo Freire.

Venho falar desses seres de luz aqui no meu Jardim, pra contar que essa aprendiz de Filosofia, hoje ganhou uma benção; o desejo de uma flor desabrochando em meu jardim e o convite dessa flor em ser minha discípula: Max, de apenas 12 anos. Max é um nome social escolhido por ele.a, porque como mesma o.a diz, “tenho tanto tempo pra definir e saber quem eu sou e sinto”. Sim, meu/minha querido.a, você tem todo tempo do mundo como diria Renato Russo, na música Tempo Perdido.

A relação Mestre-Discípulo é tão profunda que nos remonta a Platão e o Mito da Caverna, que também ja tive a oportunidade de discorrer aqui pra vocês, conforme postagem:

Premio IBEST de Filosofia

No mito de Platão, ele nos traz a profundidade da Corrente entre Mestre e Discípulo, onde a Educação é uma experiência muitíssimo importante para as relações humanas. Educação que significa eduzir algo, tirar de dentro para fora para servir a evolução humana, num processo permanente, representado pela imagem da corrente.

Mas a medida que adentramos no nosso mundo interior, estamos saindo da Caverna, e a medida que comparamos o mundo da Caverna, o mundo da escuridão e o mundo “real”, onde nos encontraremos com a Grandeza dos valores do Bom, Belo, Justo, Verdadeiro e Harmonioso, podemos fazer o educere e compartilhar com o Mundo externo, ou seja, eduzir nossas descobertas e buscas e ajudar na corrente pelo processo de busca do outro.a., pelo seu eduzir, por pra fora a descoberta de sua jornada para dentro.

Platão também discorre essa relação em corrente e do amor em filia, no belíssimo texto O Banquete, onde Sócrates e seus amigos e discípulos narram suas ideias sobre o Amor. o Banquete é um livro de texto razoavelmente curto, mas de uma profundidade ímpar. Uma narrativa que você pode ficar horas, dias, anos em reflexão.

Tive duas oportunidades com esse texto, a de assistir O Banquete de Platão no Teatro Ofycina com a CIA Uzyna Uzona, sobre a direção de Ze Celso Martinez, na noite que eu e meu companheiro concebemos nosso filho. Um mergulho amoroso pra levarmos para eternidade, que eu conto aqui nesse post:

Discurso em defesa do Parque das Águas do Bixiga/Teatro Oficina

E a segunda oportunidade de troca num grupo de estudos em Filosofia e tragédias Gregas com o Prof Claudio Loureiro onde No banquete , uma das mais lindas passagens fala do Mito do Amor entre iguais e diferentes que deixo aqui o breve trecho do livro e do discurso pra que vc acompanhe:

trecho_OBanquete_Platão

A verdade é que venho aqui hoje falar aos meus leitores e minhas leitoras a felicidade que sinto em aceitar Max como meu/minha discipulo.a, abrindo passagem à tantos.as outros.as que sei que virão.

Eu e Max viveremos uma aventura, uma viagem pra dentro e para fora da Caverna. Passearemos pelas várias Filosofias, pelas Artes, pelas religiões e espiritualidades, pela Política, pela Psicologia, pela Natureza, pelo respiro a Vida e a Liberdade. 

Max amada.o, seja bem vindo a esse encontro amoroso! Obrigada pela oportunidade.

E pra você eu deixo no podcast Mariposa ao Pé do Ouvido, inaugurando hoje a série #Filia no Jardim, episódio numero 1 , O Mito da Caverna, de Platão:

E por fim, pra você que é meu leitor uma dica: assine o blog e você receberá todas as novas publicações em seu email. Também você pode deixar registrado aqui seu comentário e compartilhar nas redes sociais. Obrigada por me acompanhar e espalhar seu perfume entre as flores desse Jardim.  Não se assuste ao ouvir o farfalhar das minhas asas de Mariposa.

Imagem de Maguari, por Marisa Salles

Premio IBEST de Filosofia

Hoje eu venho mais uma vez falar da minha escola de Filosofia a Maneira Clássica , Organização Internacional Nova Acrópole. Já contei pra vocês que sou daquelas pessoas que desde criança me vejo como aprendiz de filosofia, porque sempre muito questionadora, sempre muito reflexiva, me lembro ainda bem pequenininha de mergulhar em profundos pensamentos sobre a existência de Deus, da Natureza, dos Seres Vivos, e também  sobre os arquétipos da Justiça, da Beleza e da Felicidade. Não atoa, minhas formações passaram pelo Teatro, Educação e Psicologia, caminhos trilhados na busca da Sabedoria. 

Mas eu tinha prometido no outro post sobre a Nova Acrópole que você pode acessar aqui:

https://naimeasilva.blog/uma-busca-eterna-pelo-crescimento-espiritual-e-pela-sabedoria/ 

Que eu traria um pouco mais do aprendizado que temos discutido em Nova Acrópole e como eu tenho registrado essas reflexões.  Eu quis pegar carona num momento bem especial pra nós na escola quando estamos passamos para a segunda etapa pra ganhar o Premio IBEST nas categorias Desenvolvimento Pessoal e Cultura e Curiosidades, que no final das minhas reflexões eu deixarei o link pra você contribuir com seu voto nessa escola filosófica que perpetua a corrente Mestre e Discípulo que Platão nos ensina no Mito da Caverna.

Mas antes de você votar, quero te mostrar as reflexões do que aprendi com a Profa Fabíola Demétrio de Oliveira que ministrou a cátedra de Sociologia-Política e Filosofia da História em Nova Acrópole.

“Na vida duas coisas são certas, o amor e a morte! “ Platão

Reflexões acerca da Filosofia como centro das ideias e uma jornada rumo ao equilíbrio da alma humana e da Natureza

Para iniciar uma reflexão acerca do individuo, sociedade, Estado e História, inicialmente é necessário, contextualizar reflexões acerca do modo do ser humano se organizar no mundo.

No mundo todo, com exceção dos povos que vivem em esquemas tribais ou comunitários, os seres humanos organizam-se socialmente de maneira a manipular, enganar e extorquir os ideais e valores mais nobres e verdadeiros da alma humana.

Nesse sentido, podemos compreender porque a própria Filosofia fica diminuída ou renegada nas relações humanas, educacionais, políticas e sociais, pois sendo ela em sí um ponto nevrálgico e fundamental de conexão para a integração desses valores nas Ciências, Artes, Religiões e Política, não esteja colocada no centro do sistema político e social das nações no mundo atual.

E porque entendemos que a Filosofia não está colocada como centro dos valores humanos no mundo atual, percebemos o desiquilíbrio, o descompasso, a cisão na alma humana da maioria das pessoas, levando a um processo de auto degradação e destruição do planeta.

Posto isso, se faz necessário recordar quem somos como indivíduos, como sociedade, como Estado, e na História da humanidade, para justificar que a Filosofia enquanto busca da Sabedoria precisa ser o centro da organização humana enquanto valores individuais e consequentemente sociais, políticos e históricos.

Quando compreendemos que da Filosofia, nasceram pensamentos humanos acerca da natureza das coisas, da reflexão da existência quanto a vida e morte, das relações humanas e de como nos organizamos; entendemos que ela é geradora do conhecimento científico, das tecnologias, da fé nos Deuses, da inspiração para as Artes, da disputa e ocupação de territórios, das relações de troca, da vivência em comunidades e tribos e da criação de formas de organização política. Portanto ela congrega vários saberes, crenças, valores e princípios, que precisam ser refletidos de forma integrada e comparada na busca da sabedoria.

A Educação nesse sentido, trazida pelo pensamento de Platão, poderia ser uma chave importante para trilhar esse caminho da Filosofia que fomenta essa integralidade dos saberes e quem sabe buscar princípios e fins em comum ao Bem de todos. Ainda que esse seja um ideal que carrega muitos desafios, colocar a Filosofia no centro do debate educacional no mundo atual, seria a construção de uma jornada fundamental para garantirmos o equilíbrio interior da alma humana, do planeta Terra e de sua forma de organizar o equilíbrio da vida de todos os seres que nela habitam.

A etimologia da palavra Educação é educere, eduzir, retirar, extrair, cultivar, nutrir, criar de algo que vem de dentro de cada um de nós. E se nossas crianças fossem desde pequeninas convidadas ao exercício da reflexão integrada dos saberes e ao amor pela busca da sabedoria, certamente estaríamos trilhando uma jornada mais equilibrada, acordando-nos e despertando-nos para a verdade, bondade, beleza, justiça e fraternidade expressos num genuíno interesse humano no mundo atual.

Mas uma outra questão se coloca diante desse ideal: Como trazer a Filosofia como centro ou alvo da Educação no mundo atual?

Certamente aqui, defendemos que a Filosofia está para além de estudos teóricos, mas que convoca a uma prática diária de reflexão dessa jornada em busca da sabedoria. Os Mitos se colocam nesse sentido como ferramentas aliadas nesse processo porque nos trazem metáforas importantes para nossa vida tanto interior como exterior.

No mito da caverna por exemplo, Platão nos traz vários arquétipos existentes dentro de nós que nos impedem e nos impulsionam para essa jornada.

A caverna como um mundo das sombras que nossa alma habita, um mundo das ilusões, Maia. Os cativos acorrentados, conformados e num cativeiro naturalizado impedidos de se mexer, como observadores de imagens que acreditavam ser reais por muitos anos nessa condição, também revela nossa condição interior de uma alma cativa, vivendo de apegos, de mentiras.

A figura dos Amos, que manipulavam as imagens e vozes a fim de que pudessem enganar os cativos e trazer assim um falso ou aparente conforto. Quantas vezes não nos auto esganamos, não nos auto sabotamos, não fazemos de tudo para permanecermos numa zona de conforto, ainda que isso nos acorrente?

O símbolo da fogueira que tanto pode aquecer ilusoriamente, quanto pode servir para produzir falsos contornos, quanto pode nos chamar atenção para um esgotamento de nos manter na mesma situação? O mesmo calor que aquece, pode também ser o que nos desconforta?

A analogia da saída do primeiro homem da caverna, que precisa quebrar as correntes, levantar seu corpo, mesmo que seus músculos estejam fracos de permanecer por tanto tempo inerte, a escalada íngreme do terreno e todo o esforço, a saída da caverna e a cegueira ocasionada pelo excesso de luz solar, nos remete a jornada daqueles que buscam a verdade. A busca da verdade não é um processo fácil, confortável com um terreno plano e firme. Pode ser e na maioria das vezes é um processo em que se esgota uma situação, que exige um esforço que vai do físico ao espiritual, nos colocando em caminhos tortuosos, que testam nossa força e fé na busca, que exige de nós, ultrapassar a passagem pelos nossos amos, desejar enfrentar nossas sobras, muitas vezes nos machucar, testar nossas forças e quando conseguimos somos ofuscados pela verdade, levando ainda um tempo para compreender aquilo que passamos a ver.

Esse processo assim como o Homem que sai da caverna e depois de um tempo vislumbra a Verdade do mundo, a beleza que a vida coloca diante de seus olhos, a contemplação e a reflexão posterior sobre a Justiça de não viver isoladamente esse processo e a Vontade de incentivar seus irmãos cativos para igualmente viverem a jornada, também nos convida à analogia com nosso ideal de sociedade.

O homem que fez a jornada em busca da verdade se torna um sábio, um mestre e só ele pode retornar no caminho realizado, porque ele sabe o caminho de volta, sabe do que terá que enfrentar e seu retorno se dá por fraternidade, porque vislumbrou a verdade, contemplou a beleza, refletiu sobre a justiça, e pode fazer o caminho de volta, viver a saga do retorno para fraternalmente colaborar com a jornada dos seus.

O Mito da Caverna de Platão, assim como a vasta potência das Mitologias de várias culturas, são carregadas de tantos arquétipos que existem dentro de nós e que a luz da Filosofia, parece-nos ser uma rica ferramenta de trabalho educacional para um trabalho prático de nosso mundo interior assentado no centro da alma humana, precisando apenas ser recordado a luz da sabedoria que existe em cada um de nós e de nossa capacidade de construir laços, de ajudarmos uns aos outros, no esforço de cada saga individual e coletiva, expressos na metáfora da corrente entre mestre e discípulo.

Para que então, consideremos o trabalho da Filosofia no processo de individuação, pressupomos que esse é um processo, é uma busca permanente pela unidade, tanto dentro de cada um de nós como enquanto sociedade.

No individuo, essa busca se dá na escalada dos mundo quaternário que objetivamente tentará se perpetuar em atender apenas a realização as sensações, instintos e desejos, de um eu inferior rumo a um Eu superior representado por nossa tríade, composta pelo mapa espiritual, mente pura, intuição e vontade, que é nossa essência, nossa parte divina, nosso mundo de sabedoria, o sol em nós, que encontramos fora da caverna.

Mas esse processo quando trilhado no mundo interno, também pode ser trilhado coletivamente na sociedade tendo como uma de suas principais chaves a educação.

Nesse sentido princípios filosóficos e princípios políticos são complementares, pois se enquanto individuo posso viver em autorreflexão interior para fora de minha caverna interna, onde posso individualmente vivenciar os processos de busca da verdade, da beleza, da justiça, da harmonia, e quero viver esses valores elevados em fraternidade, como vimos no mito da caverna, então podemos concluir que existe um autogoverno. Somente aquele que vive esse autogoverno deveria poder governar politicamente uma sociedade, pois trabalharia para um Bem comum com vistas a desenvolver uma educação para todos, onde a Filosofia fosse o centro do ideal humano para que cada criança, jovem, adulto ou idoso pudesse exercer essa possibilidade igualmente.

Entretanto, quando por descontrole de sua natureza filosófica, os homens antigos passaram a rejeitar a filosofia e preservar seu caráter militar dando abrigo a ambição e poder, a possibilidade de um sociedade organizada por homens sábios, começou a desaparecer. Assim esses homens vão se tornando rudes, desvalorizando o conhecimento, tornando-se avarentos e amantes de riquezas e dinheiro, fazendo chacota do campo das virtudes e do conhecimento científico, louvando o poder das posses.

E assim, de uma geração para a outra observamos que a unidade política antes balizada por valores elevados de homens Sábios que sustentavam um autogoverno e um governo de bases Filosóficas, agora se organiza por castas, classes, onde as leis perdem força, bastando se declarar enganosamente aliado aos menos favorecidos, para que possa governar.

Dessa forma, a sociedade se organiza agora, pelos interesses individuais pautados pelos desejos, paixões, luxuria, egoísmos de toda ordem e esbanjamento. Nesse sentido, na direção de desejos insaciáveis de riqueza e poder, bem como desejo imoderado, irresponsável e irrefletido da liberdade, culmina numa sociedade que se aparelha militarmente, fomentando guerrilhas, eliminando cidadãos e dando espaço a marginalidades.

Outro ciclo histórico em que percebemos a decadência do ocidente como unidade politica foi com a queda do império romano, quando Constantino dizimou qualquer possibilidade das Ciências, das Artes e das Religiões constituírem suas instituições, desunindo e desarticulando milhões de pessoas em três continentes, resultando mais tarde num mundo medieval permeado por medo, pestes e retrocessos culturais, crueldade e mortes.

Esse desencadeamento ou desdobramentos acima expostos demonstra-nos a importância da História e de sua lógica permeada por ciclos. Ao historicizar acontecimentos, fatos, deslocamentos, ocupações territoriais, formas de organização no tempo, no espaço e nas relações de poder e comércio, a História oferece um sentido para reflexão da vida humana, da nossa existência. Ainda vale pensarmos que a História também se fundamenta numa evolução humana em relação a escrita, ao pensamento, a linguagem, as artes, as ciências e as tecnologias.

Destacamos também uma ordem de sentidos que dão sustentação a História como desenvolvimento geológico, cosmológico e religioso. Entretanto há culturas e organizações sociais em que não se dão tanto peso a importância da História, não como fim, mas como narrativas, em sociedades de tradições oralizadas.

Sendo assim, ao considerarmos o ser humano dotado de logos, permeado pela harmonia da natureza e pela matemática que a origina, também compreenderemos a História como uma organização lógica e complexa de ser composta e analisada em seus elos de interligação e aspectos de independência.

Muitas foram as culturas que não conheceram a História como Ciência, mas todos de alguma forma a viveram como Filosofia, levados por imprevistos e acúmulos de circunstâncias que conduziram esses povos a buscar um sentido e significado para os fatos, originando a Filosofia da História.

Temos, entretanto, nessa reflexão duas formas de ver processos históricos que são os fatos temporais e os fatos atemporais.

O que fundamenta os processos históricos temporais, por exemplo, são a observância de vários aspectos como: geográficos, raciais, filológicos, sexuais, políticos, religiosos ou intelectuais que se modificam de acordo com território, culturas ou tempo histórico.

Já os processos atemporais são marcas ou símbolos que nos trazem a eternidade. Uma boa ferramenta para verificarmos essa atemporalidade são os arquétipos. Os arquétipos são carregados de ideias e imagens (símbolos) fixos que nos transmitem uma mensagem independente do lugar, da cultura ou do tempo histórico.

São esses arquétipos fixos que podem nos fazer refletir sobre os ciclos e ritmos históricos. Quando refletimos sobre o Mito da Caverna por exemplo, partimos de uma reflexão de uma jornada individual, que se desdobra para a sociedade, mas também podemos refletir sobre a Historia, assim todos os arquétipos do mito se inserem dentro da Historia da humanidade. Mas o caminho inverso também é possível. Se pensarmos nos ciclos históricos e em tantos arquétipos quer estejam localizados nos mitos ou não, podemos associar a algumas perguntas existenciais de nossa jornada individual. Por exemplo, as questões: quem eu sou? De onde vim? Para onde vou?

Responder a essas questões existenciais nos leva a considerar que ao usarmos a capacidade de manas, ou parte Inteligente, se constitui como uma chave para transformação individual, coletiva e histórica que é a Educação – tirar de nós aquilo que já temos dentro – e encontraremos um caminho para essas respostas, para recordar a nossa Sabedoria.

As imagens arquetípicas também são chaves importantíssimas que nos ajudam nesse caminho, mas primeiramente é preciso que a gente reafirme que o campo dos processos individuais (individuação), os processos sociais ou coletivos (Sociedade) e os processos históricos, podem e devem se utilizar desses arquétipos como pistas para descobertas do caminho evolutivo. Assim como pensar na Educação como chave, bem como na espiral evolutiva em ciclos e ritmos, também devemos relaciona-los, aos campos, individual, social e histórico.

Vejamos por exemplo, a imagem arquetípica da Floresta. Uma Floresta é um sistema vivo, composto de vários organismos vivos, que vivem e morrem isoladamente o tempo todo, em processo de transformação, de retração e de expansão, de vida e de morte, de florescimento e de livramento de constantes elementos. Nascem e morrem pequenos arbustos, flores e frutos que retroalimentam a terra. Nascem e morrem pequenos insetos e animais. Mas também sabemos, que uma Floresta vive as quatro estações, onde para cada uma delas, precisará, enquanto sistema, viver ciclos de calor, frio, ventos, tempestades, serenamentos, hibernações, florescimentos, queda de frutos e folhas, adormecimentos, despertares, amanheceres, entardeceres e anoiteceres. Todos esses ciclos e ritmos são importantes para a respiração da Floresta, para a manutenção da vida do seu sistema e caso haja qualquer interferência nesse sistema vivo, haverá um desorganização ou desequilíbrio.

Esse exemplo arquetípico posto para qualquer tempo histórico, lugar ou cultura, pode nos remeter a uma atemporalidade e ritmos que são naturais a vários sistemas vivos e a um aprendizado importante sobre nós mesmos, sobre nossa sociedade e sobre a Filosofia da História.

Como esses ciclos e ritmos acontecem dentro de nós? Em nossa sociedade? Na História de cada cultura ou na História da humanidade? E nesses ciclos e ritmos percebemos a importância ao respeito de Leis que se desobedecidas, podem alterar a vida no sistema.

Como considerar, respeitar e permitir a fluidez dos ciclos e seus ritmos nos diversos organismos vivos? No nosso corpo? Na nossa sociedade? Na nossa História? Ou seja, nosso Eu-Coletivo e nosso Eu-Individual? No nosso Planeta Terra? No nosso Cosmos?

Para finalizar, é preciso que consideremos que mexer dentro de nós, altera significativamente o fora de nós e é o único lugar que temos a potência da autoridade e governança. Portanto, o convite para jornada interior, para saída da caverna, pode trazer respostas de mudanças também para a sociedade, para a História, para a vida humana no Planeta Terra.

Aproveito essa reflexão para deixar aqui um vídeo que me encheu de reflexões profundas sobre a Vida e nosso Planeta Terra nessa era da pandemia de coronavírus. 

E por fim te convido a conhecer Nova Acrópole caso você queira ser um Acropolitano ou uma Acropolitana como eu: acropole.org.br

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E aqui venho humildemente de pedir pra colaborar com a difusão do Premio IBEST para nossa querida Escola de Filosofia, onde você pode votar nas categorias: desenvolvimento pessoal  e Cultura e Curiosidades. 

Premio IBEST – Segunda Fase
Nosso Podcast passou para a segunda fase do Prêmio iBest 🏆 ! Obrigada pelo seu apoio e votação na primeira fase 💪🏻.
Para passarmos a fase final, precisamos do seu voto em duas categorias, segue abaixo👇

✨Desenvolvimento Pessoal   https://ibest.vote/393154118

✨Cultura e Curiosidades   https://ibest.vote/491276113 

 

Agradeço como sempre sua visita nesse Jardim que não é de Epicuro, mas inspirado nele, traz o arquétipo transformador da Mariposa, que estamos precisando e muito. Deixa aqui embaixo o seu comentário e compartilhe nas suas redes sociais.

Em Tempos de Matrix

Uma análise critica sobre o horizonte da humanidade nas futuras gerações

Eu e minhas companheiras de Jardim nascemos em uma época em que a internet e os computadores não existiam. A força do rádio e da TV como mídias eram muito mais presentes em nossas vidas. Computadores e o mundo virtual passaram a fazer parte de nossa cultura apenas no fim dos anos 90. Essas reflexões sempre estiveram em nossa relação dialética, fomentando continuamente bons debates. Trago um desses debates nesse ensaio, a qual eu e Magda, no curso de pós graduação em Gestão para a Educação Básica em 2007, na UNIFMU, perspetivamos uma mirada diferente para a geração que iria nos suceder. Obrigada por pousar na flor desse jardim!🌷


Magda Edgmar Rodrigues Rocha
Naíme A. Silva

“Considerate la vostra semenza:
Fatti non foste a viver come bruti
Ma per seguir virtute e conoscenza”

Dante, a Divina Comédia

Resumo

Este ensaio traz uma proposta de levantar algumas reflexões sobre os caminhos que a humanidade tem traçado para as futuras gerações. O impacto das novas tecnologias, o avanço das Ciências exatas e Genética, parece nos apontar caminhos que levem a humanidade, ao bem comum. Porém, estes avanços aliados à ganância de poder, capital e exploração humana, podem também levar a incertezas de um futuro não muito promissor. No filme Matrix, o personagem Neo precisa escolher entre tomar pílulas rosa ou azul, para, mais do que escolher as cores destas, definir continuar submerso em um sonho irreal do final do século XX, ou ser o escolhido para travar a batalha na realidade da Matrix e entender que o Contexto em que sua geração nasceu e cresceu não passava de um mero programa de computador. A batalha na Matrix era então para preservar o pouco de humanidade que ainda restava contra a invasão da inteligência artificial criada pela própria humanidade.

A trama do filme Matrix parece estar intimamente ligada ao drama da humanidade em nossa era contemporânea, buscar respostas com o “Arauto”, que coloca enigmas da Filosofia para desvendar quais os caminhos para vencer a dominação da Humanidade sobre sua própria invenção: a ciência e a tecnologia.

Palavras-chave: Filosofia, Humanidade, Tecnologia, Futuro.

Introdução

Este artigo tem como objetivo discutir e trazer a reflexão o afastamento da Filosofia do cotidiano da humanidade.

A Filosofia antiga revela períodos na historia Grega. Desde o pensamento Naturalista ao buscar o principio unitário de todas as coisas, o pensamento sistemático sob as bases da lógica, da ciência, da metafísica, para o pensamento ético preocupado com as questões morais e o religioso na busca de resolução para os problemas na fé. Deste período Grego da Filosofia antiga para os tempos atuais , percebemos que o “pensar” ainda está restrito a uma “elite” da alma, do espírito, da racionalidade de poucos Seres. No século XX e XXI, temos em Husserl, Heidegger, Nietzsche e Freud, questionamentos sobre os fenômenos e valores, nossa existência e da importância da nossa sexualidade para construção do self.

No entanto, toda esta elaboração refinada e rebuscada da compreensão humana, do pensar sobre o conhecimento, a ética, a moral, não parece refletir de forma mais sólida e intensa em nossa contemporaneidade.

A Filosofia como dúvida, investigação, busca de um bem comum e da preservação da vida, nos parece ter sido relegado a poucas “mentes brilhantes”.

A Filosofia deveria estar presente em nosso cotidiano, nas coisas mais simples, na infância, na juventude, com anciãos. Acreditamos que este entendimento seria uma forma de levar a humanidade como um todo a busca da harmonia entre conhecimento construído e a cultura popular, entre a Ciência , tecnologia, arte, ecologia, na busca da felicidade em meio a diversidade em todos os níveis. O resgate do sentido do tempo e do trabalho para o bem comum, do trabalho como forma de realizar cultura.

Este artigo pretende defender a idéia de que se faz urgente o espaço para o pensar de forma consciente sobre que existência desejamos ter no futuro.

Discussão

No mundo atual, nos parece que a humanidade tem uma lógica utilitária e funcional diante da vida. Esta lógica também parece trazer a ilusão de que se algo não nos serve, devemos eliminá-la. E assim vamos destruindo tradições culturais, reservas ecológicas, espaços de convivência, e no lugar disso, colocamos conhecimentos destituídos de sentidos, busca incessante de consumo que supra nossas inquietações psicológicas, espirituais e mais do que isso, destruímos na realidade, nossa ligação com o ecossistema, com o ciclo da vida.

No mundo ocidental, nos centros urbanos, nas grandes metrópoles que detém o monopólio do conhecimento cientifico e da economia predominante, da produção que sustenta a todos; as crianças têm pouco ou quase nenhum contato com o ciclo da vida. Tudo parece produzido de forma mágica até ser retirado de uma prateleira nos supermercados. Estas mesmas crianças há algumas gerações, acompanham seriados e desenhos animados na televisão e cinema que numa concepção hollywoodiana determina que sempre haverá aqueles que querem dominar o mundo pelo desejo de poder, ciência e consumo.

Ortiz (1999):

Estrelas de cinema, ídolos de televisão (hoje projetados mundialmente pela TV a cabo e pelo satélite), marcas de produto, são mais do que objetos. Trata-se de referências de vida. As viagens de turismo, as visitas à Disney World, as férias no Caribe, a freqüência aos shopping centers, os passeios pelas ruas comerciais fazem parte de um mesmo imaginário coletivo. Grupos de classes médias mundializadas podem assim se aproximar, se comunicar entre si. Eles partilham os mesmos gostos, as mesmas inclinações, circulando num espaço de expectativas comuns. Neste sentido, o mercado, as transnacionais e a mídia são instancias de legitimação cultural, espaços de definição de normas e de orientação da conduta. Sua autoridade modela as disposições estéticas e as maneiras de ser. Da mesma forma que a escola e o Estado se constituíram em atores privilegiados na construção da identidade nacional, as agencias que atuam num nível mundial favorecem a elaboração de identidade desterritorializadas. Como os intelectuais, elas são mediadores simbólicos.

As crianças neste sentido, parecem ser adestradas desde muito pequenas a acreditar que a felicidade é obter coisas, numa concepção que é mais valoroso TER do que SER. E que para tanto é necessário dispensar de disputa, violência, egoísmo e poder. Marcuse (1973) enfatiza:

Bertolt Brecht notou que vivemos numa época que parece crime discutir sobre uma árvore. Desde então, as coisas pioraram muito. Hoje, parece crime falar meramente sobre mudança, enquanto a sociedade em que vivemos é transformada numa instituição de violência. (p. 128).

A mídia e as tecnologias revelam uma nova situação para o final do século XX e inicio do século XXI: o tempo e o espaço andam paralelamente e operam em dois campos, o real e o virtual. Mas nesta lógica não é impossível afirmar que o virtual tem substituído com cada vez mais força o real. Em Marcondes Filho (2002) encontramos:

Mas o acoplamento simultâneo de dois mundos leva, necessariamente, à degradação de um deles, indubitavelmente, do mundo antigo, do mundo-base, do mundo – referencia para todas as construções no mundo dos espaços virtuais: entramos na civilização do esquecimento. (p.137).

O final do século XX e inicio do século XXI traz uma variedade de filmes na Industria cinematográfica que parece apontar um futuro para a vida da humanidade. No século XX, na década de 70, o seriado para a TV, Jornada nas Estrelas e o desenho animado Jetsons mostra um aparato tecnológico traçando uma ordem futurística como ficção científica. Em jornada nas estrelas, já havia celulares, computadores super avançados, com veiculação de comunicação pela imagem por meio de câmera em telas gigantes e teletransporte. Anos depois, acompanhamos a invenção dos celulares, web cam e outros aparatos de alta tecnologia. Em Blade Runner no inicio da década de 80, as telas de cinema nos trazem os replicantes, seres-máquina que possuem sentimentos e são escravizados em estação intergaláctica. Em contrapartida, a década de 90, a Ciência traz estudos do genoma, células- tronco e clonagem de seres humanos.

Mezan (1987) ao citar Freud afirma:

Os cientistas são, como afirma em O Futuro de uma Ilusão, os servos do Deus Logos,cuja voz, por apagada que seja, é insistente e não descansa enquanto não se faz ouvir. “Nunca pude compreender porque deveria envergonhar-me de minha origem ou, como já começava se dizer então, de minha raça. Renunciei, pois, sem grande emoção a conacionalidade que me era negada. Pensei, com efeito, que para um zeloso trabalhador sempre haveria um lugar, por modesto que fosse, nas fileiras da Humanidade laboriosa…”(p.48)

Na América, na maioria das grandes metrópoles, há um aumento populacional que se espreme geograficamente, dando espaço a uma selva de concreto. O capital nas bolsas de valores é moeda virtual que determina para quase todo o planeta a economia no mundo Globalizado. As pessoas se alimentam vorazmente em fast-foods, apresentando altos índices de obesidade mórbida, e problemas cardíacos. Aterros sanitários já não dão mais conta da quantidade de lixo produzido e não aproveitado e o lixo atômico também é cada vez maior na atmosfera. Em nome e sob um discurso pela liberdade, a América prossegue insana levando as nações a acreditarem que somos criadores e a tudo podemos e não criaturas da Natureza e como parte dela, a preservando, nos preservaremos e nos perpetuaremos. O ciclo da vida perde-se neste caminho. Concordamos com Marcuse (1973):

O fetichismo do mundo de mercadorias que parece tornar-se mais denso dia a dia, só pode ser destruído por homens e mulheres que despedaçaram o véu tecnológico e ideológico que oculta o que está acontecendo, que encobre a realidade insana do todo – homens e mulheres que se tornaram livres para desenvolver suas próprias necessidades, para construir, em solidariedade, seu próprio mundo. O fim da coisificação é o princípio do indivíduo: o novo Sujeito da reconstrução radical. E a gênese desse Sujeito é um processo que desintegra a estrutura tradicional da teoria e pratica radicais. (p.127).

Os produtos globalizados são muitas vezes produzidos pela vergonhosa exploração da força de trabalho de crianças e jovens, de homens e mulheres trabalhadores rurais, que humildes, não possuem informação e nem reflexão sobre o domínio de suas vidas, sem saber que são vitimas da mais valia tão falada pelo materialismo dialético de Marx. Esta dialética também foi apontada por Hegel: (…) Na fenomenologia do espírito, Hegel nos fala de uma dialética do senhor e do escravo, que o Ser do escravo encontra-se alienado no Ser do senhor. (apud ORTIZ, p. 78, 1999).

O desequilíbrio ecológico tem deixado pistas de que o planeta não vai bem. A água potável tem tempo de vida, o buraco na camada de ozônio tem se ampliado, a Amazônia tem sido devastada cada vez mais a cada nova década. Nos centros urbanos não há predadores na cadeia alimentar. E assim convivemos com o aumento da população de ratos, baratas e insetos transmissores de epidemias. Marcondes Filho (2002):

Os novos espaços, tanto os concretos espaços ciderais, objetos da nova Marcha para o Oeste, como as comunidades “ realmente inexistente” das cidades eletrônicas virtuais relêem o mundo e dão vazão às fantasias numa era em que o planeta vai ficando cada vez mais a mercê de si mesmo, cada vez mais espaço de dejetos de todos possíveis, desde o lixo atômico, os alimentos envenenados, o ar irrespirável, os solos contaminados, até as próprias massas humanas desalojadas, abandonadas, sumariamente liquidadas em guerras limpas. A própria revolta, o protesto, a indignação estão estruturalmente dependentes das tecnologias em tempo real. (p. 137-138).

Mas tudo parece continuar no plano da invisibilidade, multidões de miseráveis também são tratados como ratos repugnantes e na sua grande maioria são negros. Segundo Ortiz (1999) em um Outro território: ensaios sobre a mundialização:

[…] a América cada vez mais se vê como uma composição de grupos, mais ou menos irradicáveis em seu caráter étnico. O dogma multiétnico abandona o propósito da historia, substituindo a assimilação pela fragmentação, a integração pelo separatismo. […] O todo encontra-se estilhaçado, o centro ameaçado pela desunião. Não é o julgamento de valor implícito no diagnóstico de Schlesinger – a busca pela organicidade perdida da nação-, que me parece mais interessante. Mas o retrato de um povo que, no passado recente, possuía uma auto estima de si mesmo. Ele não revela apenas a face de um único país. Trata-se de uma condição do mundo contemporâneo. Isso não significa que a sociedade se descompôs – os países continuam funcionado em todo os seus níveis -, ou que o Estado-nação se diluiu no enfrentamento desses vetores identitários. Mas mudou o contexto. No seio da sociedade moderna, industrial ou pós-industrial, surge um leque de referentes que se atravessam, se chocam, se acomodam, organizando a vida dos homens.

Atribuímos tamanha invisibilidade, e essa apatia coletiva ao distanciamento da convivência em comunhão que dava aos antigos sentido à vida, ao distanciamento da tradição cultural, a não reflexão sob as bases da Filosofia.

A Filosofia é vista como um conhecimento para poucos, para os “cultos”, que não é prática, não leva a nada e a lugar algum. No mundo contemporâneo, todos têm medo da dúvida, não há tempo para a contemplação. Talvez seja uma atitude para “loucos”. Dominados pelo desejo e pela paixão, os seres buscam o prazer imediato, apagando as tradições culturais do passado e não refletindo sobre o futuro. Sem planejamento e cuidado às futuras gerações. Em Nietzsche (1887) podemos refletir:

Como é necessário que o homem, para dispor assim de antecipação do futuro, tenha começado por aprender a separar o acontecimento necessário do fortuito, a pensar de maneira causal, a ver o distante e a antecipar-se a ele como se estivesse presente, a fixar com segurança o que é objetivo, o que é meio para atingi-lo, de maneira geral a calcular, a saber calcular- como foi necessário que para isso o próprio homem se tivesse primeiramente tornado calculável, regular, necessário, até em sua própria representação de si, para chegar desse modo a poder, como o faz um ser que promete, estabelecer-se como garantia de si mesmo como futuro. (p. 56-57).

O filme Matrix, apresentado no final do século XX, revela para o novo século um mundo irreal, programado, submerso no lixo das máquinas que dominam a humanidade. Também aponta que só um retorno ao pensamento filosófico seria capaz de deter um possível esgoto de tecnologia, a Matrix. Marcondes Filho (2002)enfatiza:

Ciberespaço é o espaço criado na era tecnológica. Espaço novo, desconhecido nos 2.500 anos anteriores de cultura ocidental, inexistente materialmente, para onde ninguém pode se dirigir caminhando, de carro ou de avião. O único meio de acesso é a tela do computador. Isso leva a supor que a tela é, ao mesmo tempo, uma porta, um buraco, que, como um túnel, nos faz chegar ao novo mundo. Como um holograma, é plano, mas tem múltiplas dimensões. Curiosamente, é um espaço paradoxal, pois nele se entra, permanecendo-se no mesmo espaço físico anterior. Fica-se assim, de uma só vez, em dois mundos paralelos em que comutamos como se se tratasse de duas vidas separadas. (p. 136).

O mundo virtual chegou para ficar. Num primeiro momento chegou de maneira anárquica, subversiva, oferecendo a sensação de liberdade de pensamento, sem restrições, sem censura e formando uma rede de informações, de comunicações, de possibilidades. Mas também fez das pessoas escravos de sua aparente liberdade, talvez numa solidão coletiva. Também coloca às pessoas uma nova linguagem, uma outra lógica, uma nova compreensão sobre o corpo real e um corpo sem massa corpórea, o virtual . Brinca com o tempo e com o espaço, deixando as pessoas à mercê de seu jogo hipnótico. E a WEB, lugar possível e realizável, também exclui um número grande de pessoas que mal aprenderam ainda a lógica cartesiana da “rudimentar” leitura e escrita em papel, tipografada. Marcondes Filho (2002):

Comutar com o mundo virtual significa transferirmos-nos “fisicamente” para outro espaço, um espaço não – concreto. No passado, isso era feito mediante as formas da fantasia, nos passeios do imaginário. Mas eram sempre caminhadas individuais, solitárias, não compartilhadas. O inovador neste novo território é que ele não é imaginário; é real, mas não é concreto, é proter real, ao lado do real, como se diz de Quéau. É múltiplo, social, não é produto de minha fantasia isoladamente. Ele existe. (p. 137).

Desta forma, o mundo virtual determina e controla nosso cotidiano sob várias formas: como em nossas contas bancárias, cartões de crédito, meios de transporte… A era do Terror ( ismo) parece ter acrescido de estratégias tecnológicas ainda mais avançadas esta lista de controle do mundo virtual em nosso cotidiano.

Mesmo coisas simples da vida cotidiana obrigam e escravizam a todos a utilizarem o mundo virtual.

Dialética do senhor e do escravo. Segundo Hegel, o senhor arrisca sua vida na luta e, ao vencê-la, torna-se senhor. O escravo, com medo da morte, nada arrisca, aceitando por isso sua condição de escravo, o que o torna algo como uma “coisa” nas mãos do senhor. Contudo, na relação entre os dois um movimento dialético inverte os papéis: desaprendendo a fazer as coisas, o senhor torna-se dependente delas, vira escravo do escravo; já o escravo torna-se senhor delas, por poder dominá-las, e, com isso, senhor do senhor. Além do mais, o senhor não se realiza plenamente, pois o escravo, “reduzido a coisa”, não constitui o pólo dialético adequado para o senhor. O escravo parte do desejo: o desejo é uma forma de negar o mundo, e seu verdadeiro fim é a afirmação da consciência. A subjetividade só se afirma na medida em que o desejo se apóie sobre uma outra consciência, isto é, um outro desejo. Para cada consciência em si mesma, a outra é a negação de si, e esta negação se exprime por uma luta mortal. Aceitando o devir escravo para preservar sua vida, um dos dois reconhece o outro como senhor; segue-se que ambos se reconhecem como outros, nenhum tem de fato consciência de si; ela não se conhece a não ser na alteridade. Cf. Hegel, A fenomenologia do espírito.

O retorno e aproximação da formulação do pensar em contemplação com a natureza, na filia, no exercício pela busca da felicidade é uma necessidade para homens e mulheres, convivendo em comunhão e harmonia consigo, com o(s) outro(s), com todas as formas de vida. Não seria possível conciliar esta forma de existir com os avanços da Ciência e da Tecnologia? A humanidade por meio de reflexões e prazer por sua cultura não poderia repensar sua forma de contar o tempo, de qual sentido há nele e no espaço para a existência individual e comum? Qual legado humano será deixado às futuras gerações?

O estudioso de Psicanálise Mezan (1987) nos aponta:

Investigação, portanto, das origens, do sentido do oráculo, que implica um desvendamento paulatino do passado e termina com a reconstrução da trajetória do individuo com um “tu és isto”, como diz algures Jacques Lacan. (p.57).

A tecnologia, porém, não possui algumas questões puramente humanas: o enigma da morte, a criação de mitos e Deuses, a fé, a espiritualidade.

Esta capacidade moral, cultural, o controle dos impulsos mais primitivos da alma humana são possibilidades que a humanidade ainda dispõe para harmonizar e dar sentido a existência em consonância a construção do conhecimento das Ciências e tecnologia, voltadas ao bem comum.

Conclusão

Este pensamento imediatista do século XX nos leva a questão: Qual o futuro da humanidade? Seria possível aliarmos Ciência, tecnologia e reflexão filosófica de maneira mais coletiva? Seria possível preservarmos nossos bens naturais ecológicos? Qual o caminho da humanidade? Como trazer a Filosofia a luz da Educação que em essência deveria ser seu lugar? Como libertar as mentes humanas das amarras do pensamento funcionalista, positivista, cartesiano? Como podemos refletir de maneira mais coletiva, a nossa participação como ser vivo mais importante do planeta, porque dotado de alma, poder referenciar-nos na harmonia do cosmos? Como construir filia, esta intimidade na amizade e na reflexão sobre a ética como bem viver, voltado à felicidade e à virtude? Como desconstruir a idéia de que nascemos para ter e não para ser? Como cuidamos da infância de nossos filhos e netos? Qual geração está se formando? Qual humano está originando?

O que haverá se não houver de fato uma contra ordem, uma desobediência contra qualquer forma de opressão da vida humana biológica, mental e espiritual? Marcondes Filho (2002) enfatiza como vivemos nessa era:

A virtualização – como as máquinas da inteligência artificial – é um tipo de limpeza, depuramento, salvação da espécie. Já que não conseguimos resolver nossos problemas terrenos, já que a revolução não vingou, já que as esperanças de transformação da humanidade estão fora de moda, o homem ainda tem uma chance: pode se depurar nas tecnologias. É o pensamento técnico que expulsou do âmbito do possível todas as outras formas de pensar, todos os outros modos de se revelarem as coisas, que não seja o técnico. O virtual é a nossa redenção. (p. 137)

Como vamos trazer a luz estas reflexões em nossa realidade local? Em nosso contexto cotidiano? Parece-nos que um dos grandes desafios é trazer para o âmbito da Educação este debate da Filosofia como o farmacon, um remédio para a mentes sob o véu do obscurantismo, da violência, da degradação de nossa espécie.

Referências Bibliográficas

DANTE, A. A Divina Comédia. Inferno, Canto 26, versos 118, 119 e 120.

DUSSEL, Enrique. Ética da Libertação: na idade da globalização e da exclusão. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

MARCONDES FILHO, Ciro. O espelho e a mascara: o enigma da comunicação no caminho do meio. São Paulo: Discurso Editorial; Ijuí: Editora Unijuí, 2002.

MARCUSE, Herbert. Contra- revolução e revolta. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

MEZAN, Renato. Sigmund Freud: a conquista do proibido. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

NIETZSCHE, F. A genealogia da moral. São Paulo: Escala.

ORTIZ, Renato. Um outro território: ensaios sobre a mundialização. 2 ed. São Paulo: Olho D’ água, 1999.

SCOTT, Ridley. Blade Runner. Columbia TriStar/Warner Bros: E.U.A. 1982. Ficção Científica.

SPIELBERG, Steven . A.I. Inteligência Artificial. DreamWorks Distribution L.L.C. / Warner Bros.: E.U.A., 2001. Ficção Científica DVD

WACHOWSKI, Andy e WACHOWSKI, Larry. Matrix. Warner Bros: E.U.A., 1999. Ficção Científica DVD (136 m.)