Uma Roda Viva de Memórias e Lágrimas retiradas das sombras

 

As memórias giram como uma roda viva enlouquecida na minha mente de forma a voltar no tempo passado e retornar ao tempo presente.

Nessa noite de início de primavera de 2025 estou extremamente tocada. Acabo de chegar, e voltei para casa chorando copiosamente. Aliás enquanto escrevo esse post, continuo chorando.

 

Mas quero começar contando das minhas experiências em 2017, quando fui fazer o curso das P.L.P.s – Promotoras Legais Populares, turma 23, com nossa mestra, feminista, educadora, escritora, guerrilheira Amelinha Teles. Passei o ano de 2017 inteiro aprendendo sobre legislação e refletindo sobre as várias violências perpetradas contra as mulheres na história do feminismo no Brasil. Durante muitos encontros eu me senti emocionada, em muitos eu chorei.

 

Sobre tantos escritos que deixo no blog sobre esse tema das mulheres destaco um poemas/texto e um experimento sobre teatro documentário :

Na primavera de 2017, eu fui retirada de circulação para fazer uma cirurgia de correção de uma displasia óssea, condição de nascimento que me torturou de dor desde que nasci. Naquele momento, já sabíamos que o inominável seria o presidente do Brasil em 2018 e eu mesmo sem saber o que aconteceria, previa as piores condições para nosso país, pelo histórico do ser abjeto. Pedi ao meu médico que me operasse as duas pernas de uma vez, para que eu pudesse ir embora do país, pois eu temia pela minha vida e de minha família. Passei por todo esse desafio, e muitas vezes chorei.

 

Em 2020, inicio da pandemia de COVID-19 e dentro do desgoverno do pandemônio, o pânico tomou conta de meu coração, todos os dias quilos de pessoas morriam sem poderem receber um enterro digno com suas famílias. Quem não perdeu um ente querido? E mesmo que você não tenha perdido alguém, impossível não ter se emocionado com as 700 mil mortes no Brasil. Sim, nesse período eu chorei todos os dias de 2020 e 2021. Me entorpeci de vinho praticamente todos os dias para anestesiar a dor que dilacerava minha alma. Uma angústia, uma tormenta, um profundo abismo engolidor olhava para mim. Eu fazia rezos, mantrava, meditava, fazia mandalas, costurava, tricotava, cozinhava e lavava e limpava, limpava, limpava num TOC eterno de pânico de uma possível infecção do vírus e chorava, chorava e chorava cada vez que ouvia a sirene das ambulâncias e eram muitas todos os dias. Refletia muito sobre os aspectos sombrios coletivos que se constelavam naquele momento de coisas que precisávamos olhar na nossa história: o genocídio dos povos indígenas, o sequestro dos africanos e extradição compulsória para a América, os anos de chumbo. Eu tentava racionalizar para não chorar e meu peito doía muito, pensei várias vezes que fosse enlouquecer nesses dois anos.


 

Escrevi muito textos no blog acerca da morte e da sombra coletiva de nossa cultura, destaco aqui os poemas Pressagio do Recolhimento/ Oferenda da Morte , Alquimia: individuação e alteridade, uma revolução individual e coletiva, Intuição e Integração e As Flores que Integram esse Jardim.

 

Alquimia : individuação e alteridade, uma revolução individual e coletiva

 

Sinto com muita força as dores das pessoas e muitas vezes tento ressecar todo o desague de choro que me acomete pela escrita. Quando um oceano desagua em mim, me ajuda muito escrever.

2025 tem sido um ano de muitas lágrimas, muita depuração. Inocentemente, passei acreditar que as 700 mil mortes precisavam ser choradas, para uma cura. Que olhar para as dores dos povos originários e indígenas precisavam ser ressignificadas, mas acredito que algo em mim perdeu de vista, as mortes e torturas perpetradas a tantos/as jovens, artistas e intelectuais de esquerda na ditadura militar no Brasil dos anos de chumbo, tinha racionalizado essa crueldade ou muitas vezes depositadas as sombras do esquecimento.

Quando fiz formação em artes da cena nos anos 80, meu grupo de teatro Acorda Alice fez um espetáculo chamado A prova de fogo, da autora Consuelo de Castro, que fala sobre a invasão da policia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP no campus da Maria Antônia e a luta estudantil contra a ditadura militar em 1968. Durante a preparação das cenas e a escolha da trilha sonora, eu não continha o choro compulsivo e chorei muitas e muitas vezes. Voltava para casa a chorar.

Deixo o texto de Consuelo de Castro: A prova de fogo para quem se interessar em conhecer um extrato da nossa historia do movimento estudantil na luta contra a ditadura militar no Brasil.

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2025 marca dois movimentos no mundo: o avanço da extrema direita em muitos países, o genocídio do povo palestino, muitas guerras e guerrilhas, o mapa da fome que se intensifica e a reação das esquerdas da América Latina, em especial no Brasil quando vivemos um duro processo judicial que tenta reparar essa triste historia de golpes militares que mais uma vez tentou se repetir. Junto a esse movimento político não poderia deixar de destacar o premio de melhor filme estrangeiro no OSCAR que levamos com “Ainda estou aqui” escrito por Marcelo Rubens Paiva e dirigido por Walter Sales. A história de força e coragem de Eunice Paiva e o deputado Rubens Paiva, representado por Fernanda Torres e Selton Mello. Uma história que em sua cinematografia trouxe cenas de uma força emocional tão profunda, que levou o público a muitas lágrimas dentro das salas de cinemas do Brasil e em todo o mundo.  Tenho uma conta na rede chinesa XiaoHungshu (RED NOTE), o livro vermelho de MAO, e muitos camaradas chineses vieram me cumprimentar como brasileira por essa obra prima do cinema brasileiro, relatando que o filme também os emocionaram muito.

Curiosamente do outro lado do mundo, na Tailândia, uma série gay que arrancou lágrimas dos brasileiros/as foi “Shine” que conta a historia da ditadura tailandesa em 1969 e o sonho americano que tomou conta do povo com o advento da ida do “homem a lua”. É uma série de 8 episódios que revela os porões da ditadura, a trama em muitas camadas entre a burguesia tailandesa, a mídia jornalística da época, o movimento estudantil e a crueldade dos militares. A trilha sonora é simplesmente arrebatadora. A série é exibida exatamente no momento do tribunal que condenou o presidente anterior Jair Messias Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão. Esse evento sincronísticos acendeu um discussão importante na bolha da juventude LGBTQIA+ que acompanha series B.L.s ( Boys Lovers) asiáticas no Brasil sobre nossa historia nos anos de chumbo. Também conectou a discussão de soberania do Brasil diante do Império Americano que se mostra ruindo e em vertiginosa queda.

Deixo para vocês os trailers e as playlists de “Ainda estou aqui” e de “Shine”, bem como onde assistir ambos serie e filme e também o tribunal de condenação de Bolsonaro.

 

E hoje, fui assistir a convite de minha amiga Aischa Mourad, a peça teatral “Lady Tempestade”, texto do diário de Mércia Albuquerque, advogada que atuou na defesa de presos políticos durante a ditadura militar, encenada brilhantemente pela atriz Andrea Beltrão e dirigida por Yara de Novaes. O monólogo coloca em cena a atriz que interpreta a advogada e A. juntamente com seu filho e vai nos narrando a dor de muitas mães que perderam seus filhos e filhas. A sonoplastia é tão forte que não é exagero dizer que é um terceiro personagem em cena.

Algumas canções e sonoplastias me fizeram buscar no porão da minha alma a criança Naíme nos anos de chumbo. Lembrei da minha avó na canção de Agnaldo Raiol, lembrei dos bailinhos de garagem na música “Feelings”.

Lembrei do pátio da escola que perfilados cantávamos o hino nacional cantando de frente para bandeira do Brasil e a figura assustadora do diretor Hermo com uma corda nas mãos para bater nas pernas de algum possível suspiro mais alto. Um silêncio ensurdecedor antes e depois do hino se instalava dentro da escola. O olhar não podia ser dirigido para qualquer lugar que não fosse a nuca da criança a sua frente na fila. Era necessário medir um braço no ombro do amigo para criar espaço necessário entre um corpo e outro. O uniforme que devia estar impecavelmente passado das saias plissadas e a camisa de cambraia; os sapatos Vulcabrás absolutamente engraxados e polidos, pois caso contrário não podíamos entrar e a falta era computada no boletim descontando no final na nota, mesmo que você tirasse 10 em tudo.  Lembranças dolorosas que me marcaram profundamente a minha infância. Chorei mais uma vez copiosamente do começo ao fim do espetáculo. No final gritamos a plenos pulmões: Sem Anistia!!!! Sem Anistia!!!! Aqui um trechinho de Lady Tempestade:

A cena final ainda me arrebentou mais ainda, percebi ali que não foi “apenas” os 700 mil mortos pela pandemia e pelo pandemônio, os gafanhotos tinham matado muito mais! Ela arrancava debaixo do tapete todos os documentos dos mortos e desaparecidos políticos da Ditadura do Brasil. São todos esses papéis que você vê no chão do palco. Ou seja, temos muito mais mortes para tirar das sombras, para reconhecer politicamente, sentir, chorar!


Também percebi que eu não fui a única que chorou copiosamente e em silencio eu abracei uma senhora que também se encontrava em prantos. Ficamos assim chorando um tempo e quando nossos olhares finalmente se cruzaram, eu enxuguei suas lágrimas e ela beijou minhas mãos. Nenhuma palavra foi dita, mas tudo foi falado naqueles gestos.

Minha amiga Aischa docemente pegou na minha mão e também enxugou minhas lágrimas com suas mãos. Tudo no silêncio das palavras, mas com a fala do coração.

Eu entrei no UBER e voltei chorando, chorei, chorei e chorei. Sentada em frente ao computador resolvi despotencializar tamanha emoção com esse relato e agora me sinto depurada e pronta para ir dormir mais calma, de alma lavada.

Se puder deixar um comentário aqui no blog para que o algoritmo entregue esse conteúdo a mais pessoas, ficarei extremamente grata. Também peço que compartilhe em suas redes sociais e daqui agradeço sua visita a esse Jardim, não se assuste com o farfalhar lento das asas da Mariposa que nesse Jardim habita. Espero que você aproveita o perfume das flores por aqui. Obrigada minha leitora e meu leitor. Volte sempre e traga seus amigos e amigas.

*Esse texto foi escrito no retorno do teatro FAAP ao calor do redemoinho de memórias e lágrimas e postado no domingo onde ainda sou tomada de muitos sentimentos porque é impossível fingir que não se ouviu e viu um espetáculo como esse e todas as memórias que ele retira das sombras.

Referências Bibliográficas

Rede Direitos Humanos https://www.dhnet.org.br/memoria/mercia/

Onde encontrar o espetáculo Lady Tempestade https://www.faap.br/teatro/peca/lady-tempestade/

Onde encontrar o Curso das Promotoras legais Populares https://promotoraslegaispopulares.org.br/index.php

Quem é Amelinha Teles https://memorialdaresistenciasp.org.br/pessoas/maria-amelia-de-almeida-teles/

 

Um Natal de Reggie, dois Natais na pandemia no Brasil.

                                     Recebi hoje um belíssimo video de Arlete Torquato sobre um retrocesso no tempo desde Elton John Ancião aos 72 anos até um Natal que mudaria o destino do pequenino menino Reggie aos 4 anos.     

   

                          Ao assisti-lo lembrei-me desse post que conta sobre esse filme que se inspira na vida e obra de Elton John e quis compartilhar com vocês minhas reflexões.

Para ver o post sobre o filme aqui:

Filme Rocketman de Dexter Fletcher – análise

Tenho refletido sobre os dois últimos Natais onde pensei em cada menino e menina no Brasil que não teve a oportunidade de ganhar um presente de Natal que também mudaria seus destinos e consequentemente os nossos também, porque sempre que nasce um grande artista, uma grande ator ou atriz performático.a, um.a grande cantor.a e compositor.a, nasce uma canal de conexão de mensagens com as Musas Divinas a nos contar um tantinho também de nossos destinos. Mas quando essas Musas não vem de Mãos dadas com a Verdade, a Justiça, a Bondade e a Harmonia, deixamos esses meninos e meninas sem o direito a conhecerem seus verdadeiros destinos e milhões de nós também ficamos desprovidos de suas Artes.

                        Quando um Governo de uma nação não está de fato aliado a Grandeza dos Espíritos do Bem, do Belo, do Verdadeiro, da Justiça, da Harmonia e do Amor ao seu Povo, este não permite espaço para que meninos e meninas possam dar vazão aos seus destinos na Arte e nessa pandemia no Brasil, nosso povo voltou a sentir a fome, a miséria e a desesperança. O ódio que congela tem ocupado os corações humanos, polarizando nossa consciência e tornando a barbárie um cotidiano desprovido de sentidos humanizadores.

                              Precisamos urgente sair desse transe que nos aprisiona numa pandemia muito pior que o coronavirus, uma pandemia que nos torna Zombies, que coisifica o Ser Humano e que humaniza as coisas, onde o Divino não mora no Sagrado no Templo do nosso Coração, mas onde se sacraliza o deus capital, o deus patriarcado, o deu$ dinheiro e lucro. Onde o egoísmo e a ignorância se espalha como erva daninha pela nossa consciência tomando espaço de ampliarmos nossa Cosmovisão.

                                     Mas como diz as canções dos Brincos e Folguedos brasileiros, “mas como sou teimosa…” eu alimento em mim uma esperança e uma rebeldia, onde ainda nutro a chegada da Grandeza dos Espíritos do BEM, do Bom, do Belo e Verdadeiro, da Justiça, Harmonia e Amor e chegarem banindo o mal da arrogância, maldade, ignorância e egoísmo e podermos ver muitos meninos e meninas tendo direitos aos Natais que mudarão seus destinos e que encherão nossa Alma Brasileira de Beleza e Justiça, inundando a gente de Gratidão!

                                   Dedico essa pequena reflexão à minha amiga Arlete Torquato que assim como eu tem dedicado a vida à esses meninos e meninas, que mesmo em meio a adversidade ou ao obscurantismo, e quer estejam no chão das escolas, quer estejam em nossas clínicas psicoterapêuticas, quer estejam nos cortiços, morros ou favelas, possam descobrir seus destinos mesmo sem direito a um Natal Especial que lhe encurte a jornada.

Aqui você pode apreciar o video que recebi de Arlete Torquato de presente pra essa reflexão. Feliz Natal menina Arlete! Feliz Natal meninos e meninas do Brasil , Pandemia 2020, 2021.

Precisamos todes nos encontrar

  

Eu não pretendia escrever hoje, mas fui capturada pela arte como costuma acontecer e nessas horas a escrita me possui e estou cá sentada a conversar com es leitores desse Jardim!

Esse ano de 2020 tem sido um ano que muitas vezes nem sabemos descrevê-lo tamanho Tsunami ele se apresenta e nos atravessa com ondas que oscilam entre alegria, tristeza, raiva, enclausuramento, mergulho, explosões criativas e encantamento e potência criadora. 

Participo de três grupos que trabalham entre tantas linguagens artísticas, a linguagem musical: meu grupo de teatro Acorda Alice, o grupo dos Cantos de Trabalho e as cantigas da cultura Brasileira de Renata Mattar e o Coral de Famílias da EMIA.

A EMIA/ Escola Municipal de Iniciação Artística é a única escola PÚBLICA Municipal de infâncias de Arte da América Latina, mas deveria ter uma em cada território, bairro ou distrito brasileiro!

Nosso trabalho foi tão intenso de significados, sincronicidades e conexões regidas pelo belíssimo trabalho de Rosana Bergamasco e Viviane Godoy que me atravessa um sentimento de honra e respeito grandioso em fazer parte.

Nesse ano que se puder qualificar de alguma forma , qualificarei de fenômeno, em isolamento social e de forma virtual, realizamos três trabalhos musicais incríveis. Um vídeo de uma música composta coletivamente com Rosana Bergamasco e com os Arranjos de Viviane Godoy,  A Poesia me Interessa, que já contei um tanto aqui nessa postagem , o Vinil da Mariposa

Vinil da Mariposa

Pra falar desse trabalho preciso trazer alguns fatos. Primeiro que para trabalharmos Candeia, a professora Ana Claudia Cesar, musicista de Choro e Samba e apreciadora de Candeia veio falar pra gente a história dele. E ai gente, tenho que dizer pra vocês que quanto mais eu estudo cultura brasileira, mais eu concordo com a música Querelas do Brasil, composta em 1978 por Maurício Tapajós e Aldir Blanc, também cantada pela saudosa e formidável Elis Regina, “O Brasil não conhece o Brasil”. 

Digo isso porque são tantos artistas, poetas e compositores que ou não são conhecides ou não são ouvides por brasileires e são tão incriveis, tão ricos/as e precioses que a gente quer sair cantando essa gente toda pra todo mundo conhecer e valorizar, porque essa riqueza toda é a tradução da nossa Alma Brasileira. 

A outro fato que preciso contar é que a primeira vez que ouvi essa canção foi na voz de Marisa Monte e que sou arrebatada por tantas memórias da minha juventude onde eu buscava me encontrar. Um juventude tão perdida, mas tão criativa também, errando tanto com tanto desejo de acertar! E não é assim que é a vida? A gente vive procurando se encontrar!

Lembro que cantamos essa canção num luau em Camburi, distrito de Picinguaba, perto de Trindade, onde a gente acampava nas praias, com muita música, danças, fogueira, bebidas e comidas. E eu saia a noite sozinha, caminhando pela praia observando as montanhas escuras e pensando exatamente o quanto eu queria me encontrar, olhando minhas passadas descalça a pisar na areia. Tantas lembranças de uma juventude de tantos amores e tantas dores!

E por ultimo queria antes de mostrar pra vocês como esse trabalho ficou incrível, dizer que vocês verão no video cenas que cada pessoa do coral escolheu para representar que precisa se encontrar. Que a cena que escolhi foi o arquétipo da  Guerreira Brasileira, uma indígena, etnia que descendo de ancestrais materna e paterno!  Escolhi porque como estudiosa do sincronário da Paz, estou a serviço da onda encantada do Guerreiro e sei que essa energia me leva a me encontrar comigo mesma, com o Brasil que há em mim!

Quero agradecer a EMIA pela oportunidade de pertencer a esse coral incrivel, de pessoas generosas e talentosas! Agradecer as professoras Rosana Bergamasco, Viviane Godoy e Ana Claudia Cesar. Agradecer ao querido Noedson Martins de Almeida, que fez a dificil e criativa edição dos dois vídeos, A poesia me Interessa e Preciso me Encontrar e agradecer meu filho Abá e as crianças da EMIA pois é por causa delas que pudemos nos encontrar nesse coletivo incrível. 

E aqui nosso maravilhoso trabalho coletivo: 

Não se esqueça, colabore com a Cultura Brasileira, porque afinal precisamos todes nos encontrar, deixando aqui seu comentário, compartilhando nas suas redes sociais e espalhando seu perfume entre essas flores!

As Flores que integram esse Jardim

Hoje eu venho contar a vocês algo que há muito tenho pensado. “Plantar” ou trazer para replantar aqui nesse Jardim uma diversidade de Flores que me acompanham por esse mundão! Explico. Tenho descoberto com maior reflexão e profundidade que minha alma é bem porosa aos coletivos. Sou uma alma permeada pelos coletivos. Talvez e muito por isso, toda minha vida busquei fazeres e ações pautadas por eles: o teatro, a educação, a psicologia comunitária, a psicologia social, e agora a arteterapia em grupos.

Foi por isso que entendi que estar aqui sozinha me incomodava. Um Jardim precisa de Flores vivas, viçosas, potentes que alegrem a jardinagem, que nos façam querer estar aqui entre elas sentindo seu perfume, apreciando sua beleza. Então, estou convidando várias flores diferentes na forma e belas na igualdade. Flores que estão desabrochando e outras que tem uma maturidade semelhante aos perfumes das damas da noite. 

Essas flores são as mulheres do grupo de Acolhimento de Mulheres que curam feridas e reconhecem suas histórias suas cicatrizes, que fazem questão de exibir, como medalhas, frutos de aprendizagem da Vida. Esse grupo da qual tenho a honra de participar é coordenada pela profa Ana Paula Maluf do IJEP/ Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. Nesse grupo as mulheres, podemos expor livremente nossas dores, nossas alegrias,  nossas conquistas, nossas feridas em sangue e nossas cicatrizes. Temos amadurecido a ideia de produzir por meio da Arte, da nossa livre expressão criativa em textos, desenhos, mandalas, mapas afetivos, poemas, leitura de tarots, escrita ativa, meditações e muita expressão da nossa corporeidade.

Iniciamos esse processo da nossa expressão criativa numa parceria minha com Cecilia Crepaldi, pianista/musicista, onde noutro momento venho contar em detalhes pra vocês, porque é um projeto grande que ainda está em andamento, que integra um conto, músicas, poesia, artes plásticas, rádio novela e teatro. Por hora quero dizer que foi um dos trabalhos em arte mais intensos que tenho realizado em toda vida, que além de Cecilia Crepaldi, tenho como parceria Rosana Bergamasco, Andreia Araújo, Rosana Pereira e meu Diretor de Arte Adanias de Sousa.

Quando apresentamos o conto, com minha curadoria musical e os arranjos de Cecilia Crepaldi ao piano, imediatamente arrebatou todas as mulheres do grupo e sabemos que quando uma obra de arte toca o coração de todas/es/os, quando essa obra tem ressonância na maioria, é porque é uma expressão coletiva, mexe com a essência de todas/es/os.

Após essa parceria, abrimos um portal para a expressão criativa do Grupo de Mulheres e Ana Paula então convidou Regina Célia da Silva, artesã, e Talita Gomes, psicóloga clínica, para serem a próxima dupla a se apresentarem. E veio um texto de escrita criativa incrível conforme destaco abaixo:

Por Regina Célia da Silva Talita Gomes Fernandes

A solidão parece um buraco escuro que você não vê o fim. E quando você percebe, já não está só, está de mãos dadas com suas dores e percebe que as feridas ainda sangram.
Não há esperança, não há futuro.
É somente você e suas dores, é só você e os vários personagens que existem em si mesma, que querem levar você para o buraco, aquele buraco que não tem fim e que não há luz.
E assim, você fica aprisionada as suas dores, erros e aos piores aspectos de si mesma.
E logo em seguida, surge mais uma companheira, as lágrimas que já não encontram motivos para não cair.
E aí, você lembra que desde menina estava num deserto que queimava, maltratava e a noite congelava.
Andou sozinha, percorreu a trajetória solitária.
Até que descobriu as florestas, eram mais atrativas que o deserto, mas não soube sobreviver, não se nutria, tentou, mas tudo que conseguiu foi matar e morrer. Andou perdida e não conseguiu achar saída, pois ainda era apenas uma menina.
Certa vez, quase achou um caminho convidativo e com flores, mas era apenas uma ilusão.
E assim, permaneceu no chão, se rastejou pela lama, ficou e esperou, na expectativa que pudesse morrer para renascer.
De tempos em tempos, se levantava e dava um passo de cada vez, andava devagar, depois se recolhia e voltava à lama, ansiando pelo mergulho no mar.
O mar era o local onde se sentiria amada e acolhida, encontraria em fim a liberdade e a fluidez que tanto buscava…
O mar …ahh o mar…aquele bom e velho mar, que nos envolve, para uns proteção e limpeza com sua água salgada a levar embora, dores, angústia, solidão, trazendo alívio e renovação, para outros desespero, diante da imensidão que pode afogar com sua fúria quem ousar desafiar sem respeitar…
O mar é como a vida ou a vida como o mar, temos que descobrir e aceitar os limites, para superar e ultrapassar, por vezes nos deixar levar pelas ondas a boiar, outras tantas a desbravar e se debater sobre as águas claras, pesadas de sal, para no final…respirar…aliviada por ter sobrevivido!


fashion photography of woman hands on chin with glitter makeup
Photo by 3Motional Studio on Pexels.com

Ahhh como é benéfico a nossa alma produzir arte queridas/os/es leitoras/es. A arte é um símbolo que ganha matéria e que precisa falar, expurgar, redimir, explicitar algo que pertence a todas/es nós! E foi nessa toada de amor e livre expressão da nossa voz, que a Ana Paula convidou a Monaliza Carvalho Godoy, fisioterapeuta e Chocolatier e a Tainã Fidalgo, educadora de infância,   para comporem uma parceria e diálogo conosco! E dessa dupla nasceu essa bela escrita criativa:

Vem manapor Monaliza Carvalho e Tainã Fidalgo

Vem mana, vamos conversar, passear, tomar um café, rir ou chorar…
Vem mana, deixa eu te abraçar, vamos banhar no rio, no igarapé, no açude ou no mar…
Vamos dançar, acender uma fogueira, brincar com as crias, correr na chuva, trilhar na floresta a luz da lua até o dia raiar…
Vem mana, vamos nos juntar ao redor da fogueira, trançar os nossos cabelos, beber e comer, rir ou chorar…
Vamos, me conte! Quais são essas dores? Quais os dissabores? Oh alma querida, o que é que te aflige?
Vem, compartilhe conosco, qual é o seu enrosco, ou será um encosto?
Quais são os desgostos a serem expostos na roda amiga, que escuta e auxilia os entraves da vida…
Vem mana, vamos juntas trilhar?
Entre luzes e sombras vem o despertar… que nasce da dor, depois põe-se a brilhar.
Mana, é no rasgar-se e remendar-se que tens a noção do quão forte e bela, feroz e singela és tu alma incrédula.
Depois da tempestade vem a calmaria, que nos abrandam a vida, dependendo da vista de quem nela confia.
Vamos mana, queira ser parte da cria que cresce unida e grita convicta que pela dor vem alegria.
Que benção a dor, que depois de tanto ardor, nos tornou parte do amor gratuito e acolhedor.
Ah, o amor… que nos salva essa alma desprovida de calma, porém repleta de dor, calma!
three women wearing turbands
Photo by Dazzle Jam on Pexels.com

E esse texto retrata com tanta legitimidade a potência desse trabalho, dessa ciranda de  curandeiras, da beleza que há numa mandala de mulheres! E no próximo encontro haverá mais e certamente viremos aqui contar pra vocês! Quer agregar-se como mais um flor nesse Jardim? Escreva aqui nos comentários, aguardaremos ansiosa a sua chegada para que possamos te acolher seja você uma Rosa, uma Camélia, uma Margarida ou Dama da noite, o que importa mesmo é você espalhar por aqui seu perfume, sua beleza, mesmo que você venha carregada de espinhos! Vem!

Grupo de Acolhimento de Mulheres, coordenação Ana Paula Maluf, Analista Junguiana e Arteterapeuta

informações:  anapaulazm@yahoo.com.br 

Contatos: +55 11 38220713 ou +55 11 93019-5579

19 de agosto- Dia da Atriz e do Ator de Teatro🎭

O palco é como a vida que transcorre diante de nossos olhos,

A coxia do teatro tem um cheiro específico que faz vibrar a alma e o coração da atriz e do ator que entra em cena,

Que empresta seu corpo para aquela alma de uma personagem que existe em sua criação.

Ser atriz e ser ator é como ser um pouquinho de Deusa ou de Deus.

É saber tanto e saber quase nada de sua criação que ganha alma diante da plateia!

O teatro é aquele lugar onde a atriz ou ator precisam transmitir uma ideia, a ideia da criação, da técnica, do texto, do estudo, do suor, mas sobretudo da verdade humana.

É na cena que a vida sobrepõe a vida e ao mesmo tempo a vida sobrepõe a morte para a plateia saia um pouco maior que entrou, um pouco mais repleto para que a atriz ou ator se esvazie de preenchimentos de outrem e renasça mais humano em si mesmo.

Emoção, teatro lotado, respirações, vibrações, ribalta, luz, coxia, palco, a voz e o corpo que vibra no palco. Um universo mágico onde almas dos personagens transitam “incorporados” na corporeidade de atrizes e atores!

E as palmas revelam o êxtase e as cortinas se fecham devolvendo os corpos exaustos e felizes!

Nas imagens um pouco da minha história no grupo “Acorda Alice” e com as crianças em escolas públicas , um pouco desse universo do Teatro que preencheu e preenche minha alma de alegria e profundidade.

Um pouquinho de Jung no dia de seu aniversário

CGJung

Estou atualmente estudando Carl Gustav Jung, um psiquiatra nascido na Suíça, em 1875, que nos trouxe vastos conhecimentos que chamamos de psicologia analítica ou psicologia profunda.

Quando criança Jung ficou um ano sem ir à escola, após ter sido agredido por um amigo e desenvolveu uma espécie de síndrome do pânico.

O pai de Jung era pastor luterano e sua mãe era uma mulher rica, poderosa, mística e muito culta e, por ambas as influências, Jung interessou-se toda a sua vidas por religiosidade, filosofia, arqueologia, sociologia e psiquiatria e psicanálise. Leu Schopenhauer, Nietsche, Kant, Goethe, todos os renascentistas, grandes filósofos e, por esse motivo, usou suas próprias angústias, medos e cólera como fonte de estudo e pesquisa.

Formou-se em psiquiatria aos 26 anos em 1900, quando já havia lido “A interpretação dos sonhos” e os estudos de Breuer e Freud sobre histeria.

Somente em 1907, quando Jung escreveu um livro sobre psicologia da demência precoce, que era o nome que se dava a esquizofrenia na época, ele resolveu enviá-lo a Freud,  para que assim pudessem trocar conhecimentos.

Jung então foi a Viena durante 15 dias e lá tiveram um encontro numa conversa que durou 13 horas e que Jung classifica como “[…] uma conversa muito longa e penetrante”.

Dessa conversa nasceu uma forte amizade pessoal. Entretanto, apesar de Freud ser alguém do afeto de Jung, ele o considerava de natureza muito complicada, porque, segundo Jung, as ideias de Freud eram fixas, quando pensava algo, assim estava estabelecido e enquanto Jung se via como alguém que duvidava de tudo e de todas as coisas o tempo todo.

Entre tantas ideias divergentes, aquela que fez o rompimento dessa parceria profissional foi que, para Freud, o inconsciente humano é apenas pessoal e para Jung temos tanto o inconsciente pessoal quanto o coletivo – o que era inconcebível para Freud.

A partir daí, Jung desenvolve sua psicologia profunda e revisita toda sua obra após os 70 anos, escrevendo sobre os arquétipos do inconsciente coletivo, sobre os complexos do inconsciente pessoal, sobre a sombra, persona, anima/animus e SELF, que é o centro da essência de cada um de nós.

Ainda afirmou que nos relacionamos com o mundo exterior por meio dos sentidos, que cada individualidade pode se relacionar de forma introvertida ou extrovertida e que apresentamos formas dinâmicas de  tipos de relação com o mundo – que podem ser pela sensação, pelo pensamento, pelo sentimento e pela intuição.

Estas características combinadas na individualidade humana podem apresentar até 64 combinações entre esses opostos extrovertido/introvertido combinando pensamento/sentimento e sensação/intuição, entrelaçando-se em variadas combinações.

Para tanto revelou também, além dessas características humanas, sobre quatro tipos de temperamentos encontrados nas pessoas: colérica, fleumática, sanguínea e melancólica. Nosso aprendizado humano é não permitir que um desses temperamentos sejam fixos em nossa persona, mas que possamos dar movimento a elas num equilíbrio entre o ego e a sombra, num grande pingue-pongue dos temperamentos, pois a repressão da vazão de qualquer desses temperamentos, pode estabelecer as doenças físicas e ou mentais.

Nesse sentido é que se estabelece o trabalho da psicologia analítica de Jung, que evoca o que está retido nas sombras da alma humana e que se manifesta como fala/voz nas doenças do corpo ou da mente.

A ArteTerapia nesse sentido, é um das formas da pessoa em análise, materializar na arte esse vai-vem dos conteúdos (complexos e arquétipos) que transitam do inconsciente para o consciente com o objetivo de descobrir sua individuação.

Jung nasceu na data de hoje, em 26 de julho de 1875 e morre aos 85 anos em 1961, nos deixando um legado incrível – a psicologia clínica – a qual me sinto privilegiada de estudar. 

No vídeo abaixo você poderá assistir uma entrevista incrível do Jung, publicada no canal Jung na Prática. Se eu fosse você não perderia a oportunidade de conhecer esse grande homem.

Naíme Andréa Silva

Inverno/2019

Aluna do IJEP/ Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa