Uma Roda Viva de Memórias e Lágrimas retiradas das sombras

 

As memórias giram como uma roda viva enlouquecida na minha mente de forma a voltar no tempo passado e retornar ao tempo presente.

Nessa noite de início de primavera de 2025 estou extremamente tocada. Acabo de chegar, e voltei para casa chorando copiosamente. Aliás enquanto escrevo esse post, continuo chorando.

 

Mas quero começar contando das minhas experiências em 2017, quando fui fazer o curso das P.L.P.s – Promotoras Legais Populares, turma 23, com nossa mestra, feminista, educadora, escritora, guerrilheira Amelinha Teles. Passei o ano de 2017 inteiro aprendendo sobre legislação e refletindo sobre as várias violências perpetradas contra as mulheres na história do feminismo no Brasil. Durante muitos encontros eu me senti emocionada, em muitos eu chorei.

 

Sobre tantos escritos que deixo no blog sobre esse tema das mulheres destaco um poemas/texto e um experimento sobre teatro documentário :

Na primavera de 2017, eu fui retirada de circulação para fazer uma cirurgia de correção de uma displasia óssea, condição de nascimento que me torturou de dor desde que nasci. Naquele momento, já sabíamos que o inominável seria o presidente do Brasil em 2018 e eu mesmo sem saber o que aconteceria, previa as piores condições para nosso país, pelo histórico do ser abjeto. Pedi ao meu médico que me operasse as duas pernas de uma vez, para que eu pudesse ir embora do país, pois eu temia pela minha vida e de minha família. Passei por todo esse desafio, e muitas vezes chorei.

 

Em 2020, inicio da pandemia de COVID-19 e dentro do desgoverno do pandemônio, o pânico tomou conta de meu coração, todos os dias quilos de pessoas morriam sem poderem receber um enterro digno com suas famílias. Quem não perdeu um ente querido? E mesmo que você não tenha perdido alguém, impossível não ter se emocionado com as 700 mil mortes no Brasil. Sim, nesse período eu chorei todos os dias de 2020 e 2021. Me entorpeci de vinho praticamente todos os dias para anestesiar a dor que dilacerava minha alma. Uma angústia, uma tormenta, um profundo abismo engolidor olhava para mim. Eu fazia rezos, mantrava, meditava, fazia mandalas, costurava, tricotava, cozinhava e lavava e limpava, limpava, limpava num TOC eterno de pânico de uma possível infecção do vírus e chorava, chorava e chorava cada vez que ouvia a sirene das ambulâncias e eram muitas todos os dias. Refletia muito sobre os aspectos sombrios coletivos que se constelavam naquele momento de coisas que precisávamos olhar na nossa história: o genocídio dos povos indígenas, o sequestro dos africanos e extradição compulsória para a América, os anos de chumbo. Eu tentava racionalizar para não chorar e meu peito doía muito, pensei várias vezes que fosse enlouquecer nesses dois anos.


 

Escrevi muito textos no blog acerca da morte e da sombra coletiva de nossa cultura, destaco aqui os poemas Pressagio do Recolhimento/ Oferenda da Morte , Alquimia: individuação e alteridade, uma revolução individual e coletiva, Intuição e Integração e As Flores que Integram esse Jardim.

 

Alquimia : individuação e alteridade, uma revolução individual e coletiva

 

Sinto com muita força as dores das pessoas e muitas vezes tento ressecar todo o desague de choro que me acomete pela escrita. Quando um oceano desagua em mim, me ajuda muito escrever.

2025 tem sido um ano de muitas lágrimas, muita depuração. Inocentemente, passei acreditar que as 700 mil mortes precisavam ser choradas, para uma cura. Que olhar para as dores dos povos originários e indígenas precisavam ser ressignificadas, mas acredito que algo em mim perdeu de vista, as mortes e torturas perpetradas a tantos/as jovens, artistas e intelectuais de esquerda na ditadura militar no Brasil dos anos de chumbo, tinha racionalizado essa crueldade ou muitas vezes depositadas as sombras do esquecimento.

Quando fiz formação em artes da cena nos anos 80, meu grupo de teatro Acorda Alice fez um espetáculo chamado A prova de fogo, da autora Consuelo de Castro, que fala sobre a invasão da policia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP no campus da Maria Antônia e a luta estudantil contra a ditadura militar em 1968. Durante a preparação das cenas e a escolha da trilha sonora, eu não continha o choro compulsivo e chorei muitas e muitas vezes. Voltava para casa a chorar.

Deixo o texto de Consuelo de Castro: A prova de fogo para quem se interessar em conhecer um extrato da nossa historia do movimento estudantil na luta contra a ditadura militar no Brasil.

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2025 marca dois movimentos no mundo: o avanço da extrema direita em muitos países, o genocídio do povo palestino, muitas guerras e guerrilhas, o mapa da fome que se intensifica e a reação das esquerdas da América Latina, em especial no Brasil quando vivemos um duro processo judicial que tenta reparar essa triste historia de golpes militares que mais uma vez tentou se repetir. Junto a esse movimento político não poderia deixar de destacar o premio de melhor filme estrangeiro no OSCAR que levamos com “Ainda estou aqui” escrito por Marcelo Rubens Paiva e dirigido por Walter Sales. A história de força e coragem de Eunice Paiva e o deputado Rubens Paiva, representado por Fernanda Torres e Selton Mello. Uma história que em sua cinematografia trouxe cenas de uma força emocional tão profunda, que levou o público a muitas lágrimas dentro das salas de cinemas do Brasil e em todo o mundo.  Tenho uma conta na rede chinesa XiaoHungshu (RED NOTE), o livro vermelho de MAO, e muitos camaradas chineses vieram me cumprimentar como brasileira por essa obra prima do cinema brasileiro, relatando que o filme também os emocionaram muito.

Curiosamente do outro lado do mundo, na Tailândia, uma série gay que arrancou lágrimas dos brasileiros/as foi “Shine” que conta a historia da ditadura tailandesa em 1969 e o sonho americano que tomou conta do povo com o advento da ida do “homem a lua”. É uma série de 8 episódios que revela os porões da ditadura, a trama em muitas camadas entre a burguesia tailandesa, a mídia jornalística da época, o movimento estudantil e a crueldade dos militares. A trilha sonora é simplesmente arrebatadora. A série é exibida exatamente no momento do tribunal que condenou o presidente anterior Jair Messias Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão. Esse evento sincronísticos acendeu um discussão importante na bolha da juventude LGBTQIA+ que acompanha series B.L.s ( Boys Lovers) asiáticas no Brasil sobre nossa historia nos anos de chumbo. Também conectou a discussão de soberania do Brasil diante do Império Americano que se mostra ruindo e em vertiginosa queda.

Deixo para vocês os trailers e as playlists de “Ainda estou aqui” e de “Shine”, bem como onde assistir ambos serie e filme e também o tribunal de condenação de Bolsonaro.

 

E hoje, fui assistir a convite de minha amiga Aischa Mourad, a peça teatral “Lady Tempestade”, texto do diário de Mércia Albuquerque, advogada que atuou na defesa de presos políticos durante a ditadura militar, encenada brilhantemente pela atriz Andrea Beltrão e dirigida por Yara de Novaes. O monólogo coloca em cena a atriz que interpreta a advogada e A. juntamente com seu filho e vai nos narrando a dor de muitas mães que perderam seus filhos e filhas. A sonoplastia é tão forte que não é exagero dizer que é um terceiro personagem em cena.

Algumas canções e sonoplastias me fizeram buscar no porão da minha alma a criança Naíme nos anos de chumbo. Lembrei da minha avó na canção de Agnaldo Raiol, lembrei dos bailinhos de garagem na música “Feelings”.

Lembrei do pátio da escola que perfilados cantávamos o hino nacional cantando de frente para bandeira do Brasil e a figura assustadora do diretor Hermo com uma corda nas mãos para bater nas pernas de algum possível suspiro mais alto. Um silêncio ensurdecedor antes e depois do hino se instalava dentro da escola. O olhar não podia ser dirigido para qualquer lugar que não fosse a nuca da criança a sua frente na fila. Era necessário medir um braço no ombro do amigo para criar espaço necessário entre um corpo e outro. O uniforme que devia estar impecavelmente passado das saias plissadas e a camisa de cambraia; os sapatos Vulcabrás absolutamente engraxados e polidos, pois caso contrário não podíamos entrar e a falta era computada no boletim descontando no final na nota, mesmo que você tirasse 10 em tudo.  Lembranças dolorosas que me marcaram profundamente a minha infância. Chorei mais uma vez copiosamente do começo ao fim do espetáculo. No final gritamos a plenos pulmões: Sem Anistia!!!! Sem Anistia!!!! Aqui um trechinho de Lady Tempestade:

A cena final ainda me arrebentou mais ainda, percebi ali que não foi “apenas” os 700 mil mortos pela pandemia e pelo pandemônio, os gafanhotos tinham matado muito mais! Ela arrancava debaixo do tapete todos os documentos dos mortos e desaparecidos políticos da Ditadura do Brasil. São todos esses papéis que você vê no chão do palco. Ou seja, temos muito mais mortes para tirar das sombras, para reconhecer politicamente, sentir, chorar!


Também percebi que eu não fui a única que chorou copiosamente e em silencio eu abracei uma senhora que também se encontrava em prantos. Ficamos assim chorando um tempo e quando nossos olhares finalmente se cruzaram, eu enxuguei suas lágrimas e ela beijou minhas mãos. Nenhuma palavra foi dita, mas tudo foi falado naqueles gestos.

Minha amiga Aischa docemente pegou na minha mão e também enxugou minhas lágrimas com suas mãos. Tudo no silêncio das palavras, mas com a fala do coração.

Eu entrei no UBER e voltei chorando, chorei, chorei e chorei. Sentada em frente ao computador resolvi despotencializar tamanha emoção com esse relato e agora me sinto depurada e pronta para ir dormir mais calma, de alma lavada.

Se puder deixar um comentário aqui no blog para que o algoritmo entregue esse conteúdo a mais pessoas, ficarei extremamente grata. Também peço que compartilhe em suas redes sociais e daqui agradeço sua visita a esse Jardim, não se assuste com o farfalhar lento das asas da Mariposa que nesse Jardim habita. Espero que você aproveita o perfume das flores por aqui. Obrigada minha leitora e meu leitor. Volte sempre e traga seus amigos e amigas.

*Esse texto foi escrito no retorno do teatro FAAP ao calor do redemoinho de memórias e lágrimas e postado no domingo onde ainda sou tomada de muitos sentimentos porque é impossível fingir que não se ouviu e viu um espetáculo como esse e todas as memórias que ele retira das sombras.

Referências Bibliográficas

Rede Direitos Humanos https://www.dhnet.org.br/memoria/mercia/

Onde encontrar o espetáculo Lady Tempestade https://www.faap.br/teatro/peca/lady-tempestade/

Onde encontrar o Curso das Promotoras legais Populares https://promotoraslegaispopulares.org.br/index.php

Quem é Amelinha Teles https://memorialdaresistenciasp.org.br/pessoas/maria-amelia-de-almeida-teles/

 

Teatro-Documentário , Contos Épico Narrativos e Story Telling- por Naíme A Silva

 
A semana passada foi mais uma semana impactante pra mim no mundo das artes. Fiz uma oficina fantástica de Teatro-Documentário com o Prof Dr.  Marcelo Soler.
 
Aprendi que nós atores e atrizes, temos uma influência profunda com o teatro ficção numa concepção modernista e que o Teatro-Documentário traz a potência  do pacto documental. Essa outra maneira de pensar as artes da cena constitui-se como uma nova forma de fazer  teatro contemporâneo. 

Um jeito novo de se viver o teatro, a realidade social, as poéticas, as expressões criativas! 

Nessa oficina pude fazer dois rascunhos cênicos documentais: 

Nesse primeiro rascunho, eu tinha que me apresentar de maneira documental. Trouxe como documento, elementos cênicos que sim, falavam de mim, mas eu ainda não tinha compreendido a força e potência do pacto documental e acabei trazendo uma apresentação de mim mesma de forma muito ficcional. Ficou assim:

 

Na segunda apresentação, a proposta foi trazer  uma cena da pandemia.

Aqui  me debrucei sobre um tema dentro da pandemia, mas me preocupando em não estabelecer o mais do mesmo ou uma forma clichê. Assim, precisei fazer uma pesquisa sobre o tema, uma pesquisa documental, a busca dos elementos cênicos como documentos, a formulação de um texto/ relato, a gravação desse texto/relato em um áudio, a escolha de uma música que também pode ser considerado um documento.

Outra situação interessante foi que eu pedi avaliação de duas pessoas antes de submeter o rascunho na oficina e meu objetivo era avaliar o pacto documental no olhar do interlocutor do rascunho cênico documental. As impressões que tive me levaram a refletir sobre a força do documento explícito e sua veracidade, bem como de documentos implícitos ou que evocassem a imagem de documentos factuais.

O tema que escolhi eu já havia feito dele um conto de fadas, um poema e Story Telling.

O assunto desse tema foi o estupro da menina de 10 anos por seu tio e sua saga por hospitais de vários Estados Brasileiros para a realização de um aborto, e mesmo depois da justiça determinar a autorização do procedimento, eu quis trazer a reflexão de todas as humilhações e violências institucionais vividas pela menina. 

Nessa pesquisa eu trouxe muitos documentos explícitos como matérias jornais da época e implícitos como bonecas, mochilas, massinha de modelar, alça de sutiã que serviu de amarras aos olhos e boca da boneca. Importante lembrar que tanto no primeiro rascunho, quanto no segundo, eu tinha menos de um minuto pra cumprir o desafio e mesmo assim extrapolei o tempo. Abaixo o Vídeo/Teatro-Documentário Pandemia_2020 e os documentos/elementos cênicos escolhidos:
 

 
 
Meu poema foi citado num dos episódios do Podcast Chutando a escada, no link abaixo, bem como publicado aqui no Jardim da Mariposa conforme links abaixo:
 
 
 
O Jardim da Mariposa :

Perdoa, Criança Divina!

Quinze dias antes eu tinha realizado um curso de Story Telling com o Prof Dr Ivan Mizanzuk, onde aprendi técnicas muito parecidas com o teatro-documentário, mas num contexto Literário e com metodologias de autores estadunidenses bem específicas de contar histórias.
 
E assim, pude reescrever um conto que havia escrito de forma épico-narrativo, agora na metodologia do Story Telling, que compartilho aqui com vocês:
 
Quero contar pra você que esse trabalho com o conto de fadas, foi provocado pelo meu diretor de Arte, prof Adanias de Souza, do nosso grupo de teatro Acorda Alice, que já tem mais de 35 anos. Esse trabalho está se constituindo num projeto tão grande e incrível que me fez estabelecer parcerias com artistas maravilhosos no campo da música, que na altura certa, eu venho divulgar aqui pra você, flor do meu Jardim.
 
Aguardo gentilmente seus comentários sobre meu trabalho que vai se descortinando aos longo de tantas décadas, sobre as Artes da Cena, as artes dos contos épico-narrativos, as artes das histórias, das poéticas, da composição musical, da Filosofia, da Arteterapia de Base Junguiana, da Literatura e da Educação de crianças pequenas e supervisão e formação profissional de professoras/res.

Agradeço aos mestres incríveis Marcelo Soler, Ivan Mizanzuk e Adanias de Souza pela profundidade desses conhecimentos e vivências práticas da Arte da Cena e do Campo da Literatura.